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Ed Thorp, um homem para todos os mercados



As memórias de Ed Thorp parecem um thriller - misturando computadores portáteis que teriam deixado James Bond orgulhoso, personagens obscuros, grandes cientistas e tentativas de envenenamento (além da sabotagem do carro de Ed, para que ele tivesse um "acidente" no deserto). O livro revela uma pessoa meticulosa, rigorosa e metódica em busca de vida, conhecimento, segurança financeira e, não menos importante, divertida. Thorp também é conhecido por ser um homem generoso, intelectualmente falando, ansioso para compartilhar suas descobertas com estranhos aleatórios - algo que você espera encontrar em cientistas, mas que geralmente não encontra. No entanto, ele é humilde - e pode ser qualificado como o único trader humilde no planeta Terra - então, a menos que o leitor possa reinterpretar o que está nas entrelinhas, ele ou ela não perceberá que as contribuições de Thorp são muito mais importantes do que ele revela. Por quê?

Por causa de sua simplicidade. Sua pura simplicidade.

Pois é o caráter direto de suas contribuições e insights que o tornou invisível no mundo acadêmico e útil para os praticantes da aleatoriedade. Meu objetivo aqui não é explicar ou cunhar a importância mas colocá-lo em contexto para a minha comunidade de traders do mundo real e tomadores de risco em geral.

Esse contexto é o seguinte. Ed Thorp é o primeiro matemático moderno que utilizou, com sucesso, métodos quantitativos para assumir riscos - e certamente o primeiro matemático que alcançou sucesso financeiro. Desde então, tem havido uma coorte (força armada; tropa, um grande número de pessoas) de analistas quantitativos, como os garotos da matemática aplicada na SUNY Stony Brook - mas Thorp é o reitor deles.

Seu principal e mais colorido predecessor, Girolamo (algumas vezes Geronimo) Cardano, um polímata e matemático do século XVI que - em parte - escreveu a primeira versão de Beat the Dealer, era um jogador compulsivo. Para dizer o mínimo, ele não teve sucesso - principalmente porque viciados são maus tomadores de risco; para se convencer, basta dar uma olhada na magnificência de Monte Carlo, Las Vegas e Biarritz, lugares financiados por essa compulsão. O livro de Cardano, Liber de ludo aleae ("Livro sobre os jogos de azar") foi instrumental no desenvolvimento posterior da probabilidade, mas, ao contrário do livro de Thorp, foi menos uma inspiração para os jogadores e mais para os matemáticos. Outro matemático, um refugiado protestante francês em Londres, Abraham de Moivre, um frequentador de jogos de azar e autor de A doutrina das chances: um método para calcular as probabilidades de eventos em jogo (1718) dificilmente poderia fazer ambos os fins se encontrarem. Pode-se facilmente contar mais meia dúzia de matemáticos jogadores, incluindo grandes nomes como Fermat e Huygens - que ou eram indiferentes à perda ou não eram particularmente bons em dominá-la. Antes de Ed Thorp, os matemáticos do jogo tinham seu amor pelo acaso amplamente não correspondido.

O método de Thorp é o seguinte: ele vai direto ao ponto de identificar uma vantagem clara (isso é algo que, a longo prazo, cria uma assimetria positiva entre ganhos e perdas). O limite tem que ser óbvio e descomplicado. Por exemplo, calculando o momentum do giro da roleta de um cassino, que ele fez com o primeiro computador vestível (com ninguém menos do que o grande Claude Shannon, pai da teoria da informação), ele estimou uma vantagem típica de aproximadamente 40% por aposta. Mas essa parte é fácil, muito fácil. A parte difícil consiste em capturar essa vantagem e convertê-la em dólares no banco, refeições em restaurantes, viagens interessantes e presentes de natal para amigos e familiares - essa é a parte difícil. É a dosagem de suas apostas - não pouco, nem muito - que importa no final. Para isso, Ed fez um ótimo trabalho por conta própria, antes do refinamento teórico que veio de um terceiro membro do trio da informação: John Kelly, criador do famoso Kelly Criterion, uma fórmula para fazer apostas que discutimos hoje porque Ed Thorp tornou tal fórmula operacional.

Um pouco mais sobre simplicidade antes de discutirmos a dosagem. Para alguém que é um acadêmico julgado por seus colegas, é a percepção de sofisticação que importa. Quanto mais complicado, melhor; o simples não te dá citações, métricas complicadas e nomes rebuscados que tragam o respeito dos administradores da universidade. Os únicos acadêmicos que escapam do fardo da complicação pelo simples motivo de ter que ser complicado são os grandes matemáticos e físicos (e, pelo que ouvi, até mesmo para eles, está se tornando cada vez mais difícil no ambiente de financiamento e classificação do meio acadêmico dos dias de hoje).

Ed era inicialmente um acadêmico, mas ele preferiu aprender fazendo, com sua pele no jogo (skin the game). Quando você atua na prática, você quer a estratégia mais simples possível, e que tenha o menor número de efeitos colaterais, o mínimo possível de complicações ocultas. O gênio de Ed é demonstrado na maneira como ele criou regras muito simples no blackjack. Em vez de se envolver na complicada análise combinatória e contagem de cartas que são desafiadoras para a memória, ele cristaliza toda sua sofisticada pesquisa em regras simples: Vá para uma mesa de blackjack. Mantenha um registro. Comece com zero. Adicione um para algumas cartas fortes, menos um para as mais fracas, e nada para as outras. É mentalmente fácil simplesmente apostar com o objetivo de incrementar para cima e para baixo - apostar maior quando o número é alto, menor quando é baixo - e tal estratégia é imediatamente aplicável por qualquer pessoa com a habilidade de amarrar seus sapatos ou encontrar um cassino em um mapa. Mesmo ao usar computadores vestíveis na mesa da roleta, a detecção do limite era simples, a elegância  reside na implementação.

Como enredo secundário, Ed descobriu o que hoje é conhecido como a fórmula Black Scholes aplicada no mercado de Opções, antes de Black e Scholes a descobrirem. Sua derivação era simples demais - ninguém na época percebeu que poderia ser potente.

Agora, o gerenciamento de risco - algo central para aqueles que aprendem estando expostos a seus próprios lucros e perdas. Ter uma “vantagem” e sobreviver são duas coisas diferentes: a primeira exige a segunda. Como Warren Buffet disse: “Para ter sucesso você deve primeiro sobreviver”. Você precisa evitar a ruína. A todo custo.

E há uma dialética entre você e seu lucro/prejuízo: você começa a apostar pequeno (uma proporção do capital inicial) e seu controle de risco - a dosagem - também controla sua descoberta do limite. É como tentativa e erro, pelo qual você revisa tanto o seu apetite de risco quanto a avaliação de suas chances, um passo de cada vez.

As finanças acadêmicas, como foi demonstrado recentemente por Ole Peters e Murray Gell-Mann, não entenderam que evitar a ruína, como princípio geral, torna sua estratégia de jogo e investimento extremamente diferente daquela que é proposta pela literatura acadêmica. Como vimos, os acadêmicos são pagos pelos administradores para tornar a vida complicada, não mais simples. Eles inventaram algo inútil chamado teoria da utilidade (dezenas de milhares de documentos ainda estão à espera de um leitor de verdade). E inventaram a idéia de que se poderia conhecer o comportamento coletivo dos preços futuros em detalhes infinitos - coisas como a correlação, que poderiam ser identificadas hoje e nunca mudariam no futuro. Mais tecnicamente, para implementar a construção de portfólio sugerida pela teoria financeira moderna, é necessário conhecer a distribuição de probabilidade conjunta de todos os ativos para o futuro inteiro, mais a função de utilidade exata para a riqueza em todos os tempos futuros. E sem erros! Mostraram que os erros de estimativa fazem o sistema explodir. Temos sorte se pudermos saber o que vamos comer no almoço amanhã - como podemos descobrir a dinâmica até o final dos tempos?

O método Kelly-Thorp não requer distribuição conjunta ou função de utilidade. Na prática, é preciso ter uma relação entre lucro e o prejuízo no pior cenário - ajustado dinamicamente (ou seja, uma aposta de cada vez) para evitar a ruína. Isso é tudo.

As idéias de Thorp e Kelly foram rejeitadas pelos economistas - apesar de seu apelo prático - por causa do amor dos economistas pelas teorias gerais de todos os preços dos ativos, dinâmica do mundo, etc. O famoso patriarca da economia moderna, Paul Samuelson, supostamente estava querendo vingança contra Thorp. Nem um único dos trabalhos desses economistas sobreviverá: estratégias que permitem que você sobreviva não são a mesma coisa que a capacidade de impressionar colegas.

Então o mundo hoje é dividido em dois grupos usando métodos distintos. O primeiro método é o dos economistas que tendem a explodir rotineiramente ou a ficar ricos cobrando taxas por administrar dinheiro de terceiros, e não pela especulação direta. Considere-se que a gestão de capital a longo prazo, que era o crème de la crème dos economistas financeiros, explodiu espetacularmente em 1998, perdendo muitas vezes o que eles pensavam ser o pior cenário possível.

O segundo método, o dos teóricos da informação influenciados por Ed, é praticado por traders e analistas quantitativos. Todo especulador sobrevivente usa explícita ou implicitamente esse segundo método (Ray Dalio, Paul Tudor Jones, até mesmo o banco Goldman Sachs!). Eu disse todos porque, como Peters e Gell-Mann mostraram, aqueles que eventualmente não utilizam este segundo método irão à falência.

E graças a esse segundo método, se você herdar, digamos, U$ 82 mil do seu tio, você sabe que existe uma estratégia que permitirá duplicar a herança sem nunca passar pela falência.

Alguma sabedoria adicional que aprendi pessoalmente com Thorp: Muitos especuladores bem-sucedidos, após seu primeiro intervalo na vida, envolvem-se em empresas de larga escala, com vários escritórios, reuniões matinais, café, intrigas corporativas, construindo mais riqueza e perdendo o controle de suas vidas. Após a separação de seus parceiros e o fechamento de sua empresa (por razões que não tinham nada a ver com ele), ele não iniciou um novo mega-fundo. Ed limitou seu envolvimento na administração do dinheiro de outras pessoas. (A maioria das pessoas reintegra-se no conforto de outras empresas e alavanca sua reputação, levantando quantias monstruosas de dinheiro para receber grandes comissões.) Mas tal restrição requer alguma intuição, algum autoconhecimento. É muito menos estressante ser independente - e nunca se é independente quando envolvido em uma estrutura grande com clientes poderosos. É bastante difícil lidar com as complexidades das probabilidades, você precisa evitar os caprichos da exposição aos humores humanos. O verdadeiro sucesso é sair da corrida de ratos para modular as atividades para a paz de espírito. Thorp certamente aprendeu uma lição: o trabalho mais estressante que ele já teve foi administrar o departamento de matemática da Universidade da Califórnia, em Irvine. Você pode detectar que o homem está no controle de sua vida. Isso explica por que ele parecia mais jovem na segunda vez que o vi, em 2016, do que na primeira vez, em 2005.

Introdução ao livro de Ed Thorp - Um homem para todos os mercados, escrita por Nassim N. Taleb