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Redes são a nova burguesia

Os últimos 20 anos foram de mudanças significativas em praticamente todas as áreas do desenvolvimento humano e econômico, em um passo que ultrapassou qualquer período anterior da história humana. Quem possui mais de 30 anos de idade se recorda com clareza como a relevância dos computadores no trabalho era mínima ou inexistente.

Agora com o advento dos smartphones e o surgimento do mercado de aplicativos, cada pessoa com um celular se transforma em um nó (nodo), em uma rede distribuída. Neste sentido não levou muito tempo até as pessoas ligarem os pontos e estamos presenciando, em tempo real, indústrias enormes e estabelecidas há décadas simplesmente serem desintermediadas do dia para a noite; um exemplo é a combinação entre o telefone celular, GPS e automóvel que deu origem a profissão de motorista de Uber e desintermediou o ganha-pão dos taxistas. Vemos o mesmo acontecendo em outras áreas com AirBnb, Amazon e Google desintermediando grandes monopólios ou criando mercados que, antes, não existiam.

Mapa dos cabos submarinos de fibra ótica que mantém a internet ativa.

Nossa economia e sociedade hoje dependem da internet para funcionar da mesma forma que dependíamos - e ainda dependemos - da energia elétrica no século passado. Estamos construindo uma rede distribuída sobre outra, e a cada camada agregamos novas capacidades para a nossa sociedade funcionar com mais eficiência e gerar novas atividades econômicas. 

Das 10 maiores empresas de capital aberto do planeta, 7 são empresas que exercem sua atividade econômica através da internet. [1]

Tais mudanças na forma com que as pessoas interagem parece ser típico da época que estamos vivendo, mas na realidade estamos vendo um processo que já se repetiu anteriormente na história, quando a burguesia começou, pouco a pouco, a remover o poder da nobreza feudal, e da mesma forma como as novas tecnologias de hoje, tal captura dos meios de produção simplesmente acontece sem pedir permissão.
 
Na Idade Média os direitos eram diferentes para cada classe social. A burguesia evoluiu paralelamente ao sistema feudal mas manteve-se muito à parte dele. Enquanto que a nobreza se concentrava no campo, governava e dominava a população rural impondo-lhe pesados impostos e múltiplas obrigações, além de privá-la de uma série de direitos, também tratava-lhe de forma brutal. A burguesia, protegida pelos privilégios concedidos às cidades, passou a governar a si mesma e a administrar as funções públicas e produtivas, ao mesmo tempo que controlava a vida e atividades da população urbana não-burguesa. 

Devido a natureza superior de produção com relação à nobreza feudal, baseada na indústria e no comércio, responsável pela produção e circulação de muitos bens de consumo e pelo beneficiamento de boa parte da produção rural, com a dependência, também, de auxiliares administrativos, que ganhavam prática e competência nas funções cívicas, e com a progressiva ampliação dos seus direitos, os burgueses, virtualmente, tomaram o poder em grande número de cidades, excluindo todos os nobres das atividades e funções públicas urbanas, o que acabou por formar uma nova classe governante que tinha todas as características de um patriciado.

Contrastamos o efeito da burguesia, sua indústria e comércio desintermediando o poder do senhor feudal medieval, com o efeito das redes de informação sobre as atividades econômicas atuais, e fica claro perceber neste sentido, que estamos vivendo um período de transição, ou revolução, para uma nova forma de indústria e comércio. Nesta seara, em 2009 tivemos o advento do Bitcoin, uma rede distribuída que utiliza a infraestrutura da internet, que por sua vez se utiliza da infraestrutura da energia elétrica para servir como uma solução ao problema da moeda de troca em nossa sociedade, consolidando um sistema em camadas.

Portanto, temos uma terceira camada em nossas redes econômicas que ameaça a soberania e o monopólio dos governos sobre a emissão monetária e controle da sua política fiduciária, e assim como a burguesia não pediu autorização ao governo autocrata da época, para dominar os meios de produção, o que acabou por criar no futuro uma separação do estado e da igreja, a rede distribuída do Bitcoin também não foi previamente autorizada pelo establishment à implementar uma moeda de troca digital cuja política monetária é reforçada por um algoritmo imutável e verificada pela rede mais segura e distribuída de computadores já criada até hoje.

Seria o Bitcoin o catalisador para a separação entre o estado e o dinheiro?


Na opinião de Frederic Hayek, parece que sim:

"Eu não acredito que teremos um bom dinheiro novamente sem antes tirá-lo das mãos do governo, isto é, não podemos tirá-lo violentamente das mãos do governo, tudo o que podemos fazer é por alguma forma astuta e indireta introduzir algo que eles não podem parar."

Tal afirmação foi dita em uma entrevista de 1984 para James U. Blanchard na Universidade de Freiburg, e completamente alheio a qual seria a forma real de "algo que eles não podem parar", a presciência de Hayek soa excepcional hoje. Três décadas depois de proferir estas palavras, e um século depois de os governos terem destruído o último vestígio de dinheiro sólido que era o padrão ouro, os indivíduos em todo o mundo têm a chance de economizar e transacionar com uma nova forma de dinheiro, escolhida livremente pelo mercado e fora do controle governamental. Em sua infância, o Bitcoin já parece satisfazer todos os requisitos de Menger, Mises e Hayek: uma opção livre que é resistente à intromissão do governo.