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Uma visão honesta do dinheiro Fiat


As discussões sobre o Bitcoin geralmente partem da presunção de que o dinheiro fiduciário é terrível e contra a vontade do povo. Achamos que uma discussão sobre dinheiro e Bitcoin deve começar por reconhecer tanto o bom quanto o mal do sistema fiduciário.

Bitcoin tem uma imensa atração de todos os críticos do atual sistema fiduciário. Bitcoiners advogam pela existência de um “dinheiro sólido, sadio” - o que significa que eles preferem dinheiro que não pode ser criado ou destruído por uma instituição centralizada e tem uma oferta fixa ou pelo menos previsível, como ouro, em vez de um dinheiro onde o governo pode centralmente gerenciar o suprimento.

Embora o dinheiro soberano indiscutivelmente tenha levado a muitos abusos, como evidenciado por casos de hiperinflação, apreensões ou controles de capital, a ausência de todo o controle traz problemas próprios. No exemplo dos países do euro se constituiu uma união monetária sem uma união fiscal. O resultado é uma moeda que beneficia fortemente as nações orientadas para a exportação, como a Alemanha, enquanto prejudica importadores líquidos como a Grécia ou Portugal.

O dinheiro Fiat é incrivelmente útil quando as pessoas querem que seu país tenha soberania monetária. Ceder o controle da oferta monetária a uma instituição estrangeira (por exemplo, atrelando-se a um ativo incontrolável como o ouro ou o bitcoin) elimina a capacidade de adaptar a política monetária e econômica do seu dinheiro às necessidades de sua economia.

Benefícios do dinheiro soberano

Os proponentes do dinheiro Fiat diriam que cada país tem seus próprios problemas econômicos que precisam de soluções personalizadas. É por isso que o Reino Unido, a Noruega ou a Suécia nunca aderiram ao euro e a maioria dos países do sul da Europa hoje se arrependem.

A soberania monetária, por outro lado, desbloqueia certos benefícios para os países:

1 - O governo pode financiar melhor os grandes projetos e benefícios sociais, imprimindo mais dinheiro, o que é bom para os beneficiários desse estado de bem-estar social.
2 - O governo pode desmonetizar ou congelar recursos facilmente, o que é bom para o combate ao crime (a maioria das pessoas não é criminosa, mas quer ser protegida do crime).
3 - O governo pode gerenciar a liquidez fiduciária com o objetivo de alavancar a economia quando necessário e suavizar os ciclos de negócios.
4 - O governo pode manter a moeda estável contra uma cesta de bens e serviços para aumentar sua usabilidade na economia
5 - Os países podem desvalorizar sua moeda no comércio internacional para impulsionar suas exportações e reduzir seu déficit comercial

Inflação contenciosa

Como os governos tendem a criar mais dinheiro do que eles destroem, o valor do dinheiro fiduciário é corroído por um longo período de tempo em relação a todos os ativos reais. E como criar dinheiro novo não cria novas riquezas, a senhoriagem de gastá-lo primeiro pode ser vista como um imposto implícito para todos os outros detentores do dinheiro. Um pequeno nível de inflação não é um efeito colateral do dinheiro fiduciário, mas é ativamente visado pelos bancos centrais hoje.

A inflação incentiva empresas e famílias a investir em empreendimentos produtivos e facilita o cumprimento das obrigações futuras do governo, à medida que as dívidas nominais se tornam mais fáceis de serem pagas quando cada unidade de dinheiro perde um pouco seu poder de compra. É também uma ótima maneira de tributar a economia paralela em lugares onde a conformidade pode ser baixa para cobrar impostos pesados, como a Índia, grande parte da África e da América do Sul.

A moeda fiat é inevitável?

A capacidade de tributar através da inflação é mais do que uma ferramenta para redistribuição de riqueza dentro de uma economia. Também pode ser usado para obter vantagem na competição supranacional. Se a China pudesse alocar recursos infinitamente para a produção militar, imprimindo mais dinheiro, enquanto os EUA tivessem que alocar via taxação, isso terminaria em um enorme desafio pelos EUA. Nesse cenário, a China tomaria emprestado dinheiro de seus próprios cidadãos por meio de impostos implícitos, mas esse dinheiro retornaria em sua economia mais tarde, a partir dos espólios de uma guerra vencida.

Assim, enquanto os que advogam pela existência de um dinheiro sólido defendem que a abolição do padrão-ouro levou a uma guerra mais sustentada, o que não está errado sustentar, podemos imaginar uma situação semelhante com relação à teoria da dissuasão. Embora possa ser melhor para o mundo em geral estar em um padrão de dinheiro sólido (ou não ter armas nucleares), o equilíbrio seria instável: assim que um jogador o abandona, ele obriga todos os demais a segui-lo até um novo equilíbrio inferior.

Outro paralelo é o surgimento do próprio Estado-nação, que rapidamente se mostrou muito mais forte militarmente do que o estado feudal, já que os governantes conseguiram criar exércitos nacionais. Os novos estados-nação emergentes dominaram todas as formas mais antigas de organização política que forçaram os demais atores a se centralizarem em novos estados-nação.

Problemas Fundamentais

Embora o sistema fiduciário tenha muitos aspectos positivos, as últimas décadas revelaram alguns problemas fundamentais. Se você quiser que seu suprimento de dinheiro seja flexível, você ainda precisa decidir quem vai administrá-lo.

Em nosso sistema atual, os bancos centrais e governos terceirizaram amplamente a criação e a destruição de dinheiro para bancos comerciais. O dinheiro novo é criado quando esses bancos creditam contas emprestadas sem debitar, por outro lado, outra pessoa. Para os passivos que eles têm em relação a seus clientes, eles precisam apenas manter uma pequena fração dos depósitos reais na reserva. Isso é conhecido como sistema bancário de reservas fracionárias.

Infelizmente, isso fere as funções vitais de um sistema financeiro, que são:

1 - facilitar pagamentos
2 - intermediar investimentos/empréstimos
3 - fornecer seguro

Para se tornar irremediavelmente entrelaçada. Se muitos devedores deixassem de pagar seus empréstimos, isso poderia fazer com que todo o sistema, incluindo os pagamentos, fracassasse até mesmo para os clientes que nunca concordaram em ter seus depósitos investidos em esquemas de risco em primeiro lugar.

Também cria uma grave desconexão entre risco e recompensa para o setor financeiro. Quando se permite que esse jogo ocorra no mesmo nível que o sistema de pagamentos e outras partes cruciais de nossa infraestrutura financeira, o governo se torna obrigado a resgatar os bancos quando eles se deparam com problemas decorrentes de suas atividades arriscadas. Isso leva os bancos a um comportamento ainda mais arriscado, sabendo que mais volatilidade só pode aumentar sua vantagem, já que as perdas potenciais são limitadas.

Uma nova conversa sobre dinheiro

Mesmo os proponentes fiduciários concordarão que temos alguns problemas fundamentais em nosso atual sistema financeiro. Existem empresas cruciais ao sistema que não podem entrar em falência porque as diferentes partes do sistema estão muito interconectadas e não são modulares. Uma crise em uma parte pode se espalhar pelo resto da economia e colocar todo o sistema em risco. Não é exatamente assim que você deve projetar uma infra-estrutura crítica mundial.

Este é o meu ponto de partida favorito para pensar sobre o Bitcoin. É mais do que “fiat vs sound money”. Os proponentes do Bitcoin são movidos por um interesse coletivo em explorar como podemos evoluir para uma sociedade melhor e como podemos tornar o sistema financeiro global mais estável e distribuído. Os criadores do Bitcoin não viram como poderiam contribuir para consertar as brechas no sistema atual, por causa de poderosos operadores que têm um forte interesse em preservar o status quo. Então eles encontraram uma maneira de competir.

Mas não é uma tentativa de aquisição hostil. O objetivo do Bitcoin não é destruir, mas sim oferecer-nos liberdade de escolha, e fazer uma discussão sobre a natureza do dinheiro e seu papel crucial em nossa sociedade.

Texto traduzido, para acessar o original clique aqui