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Será a tecnologia a próxima religião?

Outras definições mais amplas de religião dispensam a ideia de divindades e focalizam os papéis de desenvolvimento de valores morais, códigos de conduta e senso cooperativo em uma comunidade”.   («O que é religião». Grupo Escolar. 25 de junho de 2008.)


As pessoas adoram a tecnologia tanto quanto adoram a religião. Aliás, em muitos aspectos parece que a tecnologia tem o poder de realizar o próprio papel da religião. Ao menos quando se leva em conta uma definição mais ampla de religião, não a que possui como cerne o culto das divindades, mas as que se concentram nos papéis de desenvolvimento de valores morais que moldam o padrão de condutas de uma sociedade, e que além disto, aprofundam o senso cooperativo que fazem com que núcleos sociais se organizem e ajam com mais coerência e eficiência em busca da realização das suas pretensões sociais compartilhadas.

A internet parece ser o lugar para onde todo o desenvolvimento tecnológico da sociedade convergiu gradativamente. É o suprassumo da tecnologia. É o que permite entrarmos num novo paradigma, chamado por especialistas, de Terceira Revolução Industrial.  Uma nova forma de se comunicar, de fazer negócios, de se relacionar com outras pessoas, de interagir com objetos. Uma verdadeira revolução nas relações sociais. 

As grandes transformações tecnológicas possuem o mesmo poder de influência na vida das pessoas que as religiões porque, também, tem a capacidade de atuar no desenvolvimento de valores éticos e morais e,  portanto, ajudam a dar molde à determinada organização social.

Por outro lado, muitas vezes, também ajudam a aprofundar o senso cooperativo em uma comunidade, e ninguém pode duvidar disto, já que tomando como exemplo a própria internet, é notório e de ampla publicidade que esta ferramenta elevou o nível de comunicação entre as pessoas e, portanto, aumentou o grau de cooperação entre os indivíduos e a suas comunidades, afinal, é assim que a internet se organiza, por meio de comunidades virtuais, que já não possuem mais as limitações culturais e geográficas de outrora. São justamente esses dois aspectos que tornam a internet, o que talvez seja, a ferramenta tecnológica mais sofisticada que o ser humano já produziu.

É uma nova ordem moral e de cooperação radicalizada que está surgindo, onde os indivíduos buscam ser mais livres através da coletivização dos seus interesses e da descentralização da execução destas pretensões no mundo da substância ou na própria rede, uma espécie de cooperação radicalizada que traz mais potência e flexibilidade na organização e realização de determinadas atividades que são um fim em comum para comunidades localizadas na rede.

Estas redes comunitárias globais permitem à sociedade civil se organizar e realizar coisas que antes eram impensáveis, sobretudo, pela limitação da comunicação, mas também, pela limitação econômica que hoje pode ser superada pela união do capital de vários indivíduos somados e integralizados por meios tecnológicos. 

Este cenário vem, gradativamente, desintensificando a dependência que os indivíduos possuem tanto do Setor Econômico-Financeiro quanto do Estado, já que a internet permite às pessoas praticarem a auto gestão sob vários aspectos, como por exemplo, a possibilidade de arrecadar valores consideráveis através dos chamados crowdfundings. Outro exemplo é o caso da Bitcoin, uma moeda descentralizada, pautada por regras pré-definidas e inerentes à sua própria constituição,  lastreada na sua própria tecnologia, e segura por ter uma sistematização “Open Source”(de código aberto), além de se utilizar de criptografia de ponta nas suas transações. 

É uma moeda paraestatal que fica, a princípio, desvinculada de qualquer intervenção externa, inclusive, intervenção estatal como a exemplo da moeda tradicional oficial de um Estado, que por meio de um Banco Central, sofre influência de ordem política, sempre atrelada a uma ideologia específica, inerente ao Poder Executivo. Aliás, estas políticas influenciam diretamente na vida cotidiana das pessoas pois regulam a relação que elas tem com a moeda local, além de regularem a quantidade de dinheiro disponível no mercado, e a interferência na inflação e, consequentemente, no poder de compra dos indivíduos, etc. 

A radicalização deste modelo descentralizado que emergiu no seio da sociedade parece ser inevitável com o deslinde do tempo, e dentro de uma perspectiva positiva, pode tornar o indivíduo mais livre no sentido de estar menos dependente do poder econômico e do Estado. 
Aliás, o que parece estar por vir por meio da terceira revolução industrial é justamente uma reavaliação plena, por parte da sociedade, da própria função do Estado, e da forma de distribuição do poder econômico perante a sociedade.

A internet parece ter tanta influência, ou mais, que a religião nos valores morais das sociedades, ou ainda, parece estar despertando mais o senso cooperativo em comunidades do que a própria religião é capaz de fazer. Será a tecnologia a próxima religião? 

É preciso avançar com cautela, pois toda a tecnologia, assim como qualquer religião, pode ser usada de forma anti-ética e imoral, no entanto, também é preciso reconhecer que, pela primeira vez na história, o ser humano possui uma ferramenta do calibre e da potência da internet para realizar uma profunda transformação na sociedade que, se usada com sabedoria, pode tornar os indivíduos mais livres, mais protegidos dos abusos do poder econômico e do poder do Estado, mais equânimes, mais cooperativos e pautados numa espécie de compaixão, que no final, é um dos princípios mais elementares inerentes em grande parte dos mitos religiosos espalhados ao redor do globo.